terça-feira, 8 de dezembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Manual da Paixão Solitária

A Câmara Brasileira do Livro divulgou faz pouco os Livros do Ano, Ficção e Não Ficção, durante a entrega do troféu aos vencedores das 21 categorias da 51ª edição do Prêmio Jabuti. Em Livro do Ano Não Ficção, o escolhido foi Monteiro Lobato Livro a Livro, organizado por Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini. E o Livro do Ano Ficção foi o romance Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar, que já havia sido agraciado com o prêmio na categoria de Melhor Romance.
No livro, Scliar reapresenta a história bíblica de Onã, aquele mesmo, que passou para a história como o padroeiro dos onanistas porque, dizem as escrituras, "deitava seu sêmen sobre a terra" para não engravidar a esposa, mulher de seu irmão. Mas a fama é injusta, diz Scliar no romance, estruturado como um embate entre dois eruditos em exegese bíblica em um congresso acadêmico. O verdadeiro onanista era o irmão de Onã _ um dos narradores da história.
Para quem ter uma palhinha do livro vencedor, vai abaixo o trecho de abertura de Manual da Paixão Solitária:
Como vinha acontecendo desde 1990, a comissão organizadora do Congresso de Estudos Bíblicos, realizado cada ano numa cidade brasileira, selecionou uma passagem bíblica como tema central do encontro: Gênesis, capítulo 38, texto que conta a história do patriarca Judá, de seus filhos e de uma mulher chamada Tamar.
A escolha despertou inusitado interesse. Na sua fala inicial, proferida no auditório do elegante hotel de veraneio em que se reuniam os congressistas, cerca de duzentos, disse o presidente da Sociedade Cultural de Estudos Bíblicos, o historiador José Domício Ferraz:
— Trata-se, permitam recordar-lhes, de uma história estranha. Para começar, está inserida numa outra narrativa, aquela que nos fala de José no Egito, narrativa essa que é bruscamente interrompida. E a sucessão de acontecimentos é surpreendente, quando não chocante. Tudo começa quando Judá, um dos irmãos de José, "afasta- se de seus irmãos" e vai viver na casa de um homem chamado Hirá, encontra uma canaanita, com quem casa, tornando-se pai de três filhos, Er, Onan, Shelá. Eles crescem e Judá arranja uma esposa, Tamar, para o primogênito Er. Por alguma razão que o texto não esclarece, Er desagrada ao Senhor e morre sem engravidar Tamar. De acordo com a tradição, se o irmão mais velho falecia sem deixar filhos, competia a seu irmão ter relações com a viúva de modo a assegurar a progênie. Mas Onan, sabendo que o filho de Tamar não seria considerado dele (e que esse filho seria o herdeiro do patriarca, não ele), cumpre seu dever de forma parcial; ele "derrama o sêmen na terra", praticando, pois, coito interrompido, o que também acarreta a sua morte. Restaria o terceiro filho, mas Judá, temeroso de que o rapaz tenha a mesma sorte dos irmãos, pede a Tamar que espere algum tempo: afinal, Shelá não é ainda adulto, homem-feito. Coisa que Tamar, como podemos imaginar, não aceita de bom grado. Tempos depois realiza-se em Timna, localidade próxima, uma reunião de criadores de ovelhas para tosquia. Judá, agora viúvo, ali comparece. No caminho passa por Enaim, onde há um templo pagão e onde vê uma mulher coberta por um véu, aparentemente uma prostituta. Seu desejo despertado, oferece-lhe, em troca da relação sexual, um cabrito, a ser enviado depois. A mulher aceita, mas pede uma garantia: o cajado, o sinete e o cordão de Judá, símbolos da dignidade patriarcal. Judá, ainda que relutante, concorda. De volta a casa, pede a um amigo que leve o cabrito à mulher, mas surpreendentemente ela não é encontrada. Ninguém a conhece.
Interrompeu-se, tomou um gole d'água e continuou:
— Pouco depois Tamar aparece grávida. Tomado de fúria — ela ainda deveria estar sob seu controle patriarcal —, Judá condena- a à morte. Tamar então revela que o pai do filho que traz no ventre é o dono do cajado, do sinete e do cordão: o próprio patriarca. Judá reconhece que foi enganado e assume a paternidade. Tamar dá à luz gêmeos, Zerá e Perez-que será um antepassado do rei Davi e de José, o pai terreno de Jesus. Com isso encerra-se a história. Que, como sabemos, apresenta vários aspectos interessantes. Em primeiro lugar, o costume do levirato, comum no Oriente Médio da época, segundo o qual o irmão ou parente de um homem morto deve dar um filho à viúva. Havia para isso uma explicação prática: a viúva não poderia herdar as propriedades do esposo falecido, só os filhos. Compreende-se assim a determinação de Tamar em engravidar, e para tal recorrerá a uma artimanha. Nisso, não é exceção. O Gênesis conta como Rebeca enganou Isaac, fazendo com que o já senil patriarca abençoasse, e portanto reconhecesse como herdeiro, o filho de ambos, Jacó, em detrimento do primogênito Esaú; como este era peludo, Rebeca disfarçou Jacó com um pelego de carneiro.
Nova pausa, e prosseguiu:
— A astúcia de Tamar, como a de Rebeca, fica evidente. Ela se vale do fato de que a prostituição religiosa era uma coisa comum no Oriente Médio, praticada inclusive por mulheres casadas, que se entregavam a estranhos em nome da religião. Era esse o disfarce que Tamar estava adotando, recorrendo inclusive a um véu para não ser reconhecida.
E concluiu:
— Dentro do objetivo de nossa reunião, que é de estudar a Bíblia sob um enfoque científico e cultural, há muito o que discutir. Como eu disse, espero um bom debate sobre o tema.
Que o debate seria intenso era consenso entre os participantes do evento, historiadores, antropólogos, psicólogos; a passagem escolhida não podia ser mais interessante. E debate era o principal objetivo do encontro, cujo programa previa discussões de grupo pela manhã e à tarde. As noites destinavam-se às chamadas conferências magistrais, em que pessoas de reconhecida autoridade também abordariam o tema. Havia muita expectativa em torno da apresentação do professor Haroldo Veiga de Assis, que viera dos Estados Unidos, onde lecionava numa importante universidade da Ivy League. O que, a propósito, custara bom dinheiro: o professor Haroldo cobrava caro por suas palestras, só viajava de primeira classe e exigia hotéis cinco estrelas. Mas era tal sua fama que os organizadores do encontro não pouparam esforços para trazê-lo, conseguindo inclusive financiamento especial. Afinal, o professor Haroldo fora o único brasileiro a fazer parte do grupo de especialistas que estudara o chamado Manuscrito de Shelá, recentemente encontrado numa caverna em Israel e que, à semelhança dos Manuscritos do Mar Morto, fora saudado pelos historiadores como um achado sensacional.
Na noite em que o professor Haroldo falou, a segunda do evento, o auditório estava lotado. Ninguém faltara, e havia várias pessoas de pé. Todos aguardavam ansiosamente sua intervenção. Finalmente, e saudado com palmas estrondosas, ele subiu ao palco.
Aos sessenta e sete anos, o professor Haroldo, um homem alto, magro, de basta cabeleira, enorme barba e um olhar que os rivais, vários, não hesitavam em rotular como desvairado, era conhecido pela extraordinária cultura (dominava o hebraico, o aramaico, o árabe, o latim, o grego e seis outros idiomas, citava de memória qualquer trecho do Antigo Testamento) e pela excentricidade; usava terno e gravata, mas tênis coloridos, segundo ele mais cômodos e bonitos do que convencionais sapatos, além de representarem, em seu ponto de vista, uma homenagem ao Brasil, país da diversidade, ao qual se considerava visceralmente ligado.
Nos vários artigos sobre o manuscrito publicados tanto na imprensa leiga como em respeitadas revistas especializadas, o professor garantia que Shelá se revelara um personagem fascinante, um narrador que levava a imaginação ao paroxismo, mas que escrevia com uma autenticidade surpreendente, coisa que, acrescentou numa entrevista, "mobilizou meu próprio imaginário; não consigo falar sobre esse misterioso Shelá com a neutralidade e com o distanciamento que em geral caracterizam os estudos históricos. Sinto-me obrigado a inovar, a recorrer ao inusitado, ao inesperado, ao não convencional".
Declaração que deveria ser levada ao pé da letra. O professor, dramaturgo nas horas vagas (uma peça sua, escrita em parceria com um conhecido escritor, estava em cartaz naquele momento, encenada por um grupo amador de São Paulo), era um tipo performático que costumava adotar, em suas apresentações, aquilo que chamava de enfoque heterodoxo. Esse enfoque podia expressar-se tanto na forma de abordagem do tema como no desempenho do orador, que não raro chegava às raias do histriônico, constituindo-se em verdadeiro happening e provocando ora vaias, ora aplausos, ora as duas coisas. Os coordenadores estavam preparados para isso, mesmo porque, como dissera uma psicóloga que fazia parte da comissão organizadora, havia evidente compatibilidade entre o estilo do professor Haroldo e o tema do conclave, sem falar no fato de que o autor do manuscrito aparecia, na passagem bíblica, como um personagem até certo ponto intrigante, ainda que menor.
Tudo poderia acontecer; não era impossível que o conferencista, baseado em sua experiência de teatro, apresentasse um texto redigido na primeira pessoa, uma espécie de monólogo do próprio Shelá, falando desde um passado remoto sobre sua trajetória, suas aspirações, suas fantasias. E foi isso exatamente que ocorreu.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Querido diário...
Hoje o motivo deste post é que aos poucos vou encontrando ou re-encontrando partes de mim que fazem falta e que andaram comigo durante muito tempo da vida. Sempre gostei de escrever, lembro que em tardes de chuva no cassino pegava folhas e mais folhas e me botava a escrever, sobre a natureza, sobre o amor, sobre as coisas do dia a dia. O tempo foi passando e continuei a escrever, colocar no diário o que tinha acontecido aquele dia, quem conheci, quem me conquistou.
Colei muita entrada de cinema, muito desenho recortado de revista, dei muito beijo de baton rosa nas páginas em que eu escrevia e já cheguei a guardar lenço de papel usado (o que limpamos a boca) e mechas de cabelo. Contei para o diário o dia que fiquei com o primeiro garoto e também quando foi minha primeira vez. A forma de escrever hoje já não é a mesma, existe o blog, o diário virtual. Mas eu sinto falta do papel, de rabiscar, desenhar um coração entre uma palavra e outra, e por mais que eu também consiga escrever colorido no blog, nada vai apagar da memória e da saudade aquele estojo gordo com canetas coloridas.
Já tive muitos diários, na verdade eles estão comigo até hoje, não coloquei nenhum fora. Ali está parte da minha história, meus detalhes da adolescência, tudo o que eu não tive coragem de falar ou qualquer bobagem que pensei em fazer.
O PC, ao mesmo tempo que aproxima as pessoas e é mais prático aos dias de hoje, não tem o mesmo charme das folhas, das estrelinhas, do tempo em que se disponibilizava para decorar tudo aquilo. Conforme a gente vai crescendo vai deixando de lado os pequenos prazeres. Temos outras preocupações é claro, mas quando se fica "grande" o principal a não esquecer são as coisas que fizeram parte da nossa vida, não só as pessoas, mas tudo aquilo que um dia de alguma forma ainda continua a fazer parte da gente.
Sinto saudade das folhas, do lápis, da caneta, da borracha que fez um borrão naquilo que tentamos apagar. Antes, fazia do blog a extensão do diário que aposentei, mas hoje aprendi e percebi que não vale tanto a pena escrever para quem quiser ler o que antes apenas eu e o diário sabíamos. Tanto importava se ele fosse pequeno, médio ou quase um caderno, o conteúdo dele era a minha maior preciosidade. Dizem que o nosso travesseiro é o único que sabe quantas as vezes a gente já chorou escondido, o diário - para quem tem ou teve - é quem sabe o único que sabe de todas as nossas fragilidades.
Durante muito tempo fiquei sem escrever nas folhas, hoje as vezes me arrisco em cartas, outra saudade que tenho. O e-mail é PÁ PUM ... chegou! As cartas são escritas com delicadeza, mais amor, mais atenção, demoram para chegar, mas quando chegam, nossa, que felicidade abrir o envelope tentando rasgar o mínimo possível para não estragar, abrir devagarinho e ler mil vezes as mesmas palavras.
Os postais já quase não existem mais, a Internet aproxima, mas é um tanto quanto fria. Também me faz rir sozinha na frente do PC, também me faz chorar seja de tristeza ou de saudade, mas também me dá prazer ao escrever, como faço agora.
Não vou abandonar o blog, mas acho que retornarei ao velho e bom companheiro...meu querido diário.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
10 a 20 de setembro - RioCentro
Vale a pena prestigiar a Bienal do Livro do Rio - 2009


